MÁQUINA E TRADIÇÃO: “ENTRE CAMPO E CIDADE”
Arivaldo Leandro da Silva Monte
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
A sociedade moderna tem sido, ao longo dos anos, mais positivamente fragmentadora e desestabilizadora do homem, que a própria fulgurante tentativa do Positivismo em querer transformá-la na égide da civilização humana. Basta olharmos os seus efeitos turbulentos e neuróticos na vida das pessoas para perceber seus tons patológicos e hipocondríacos. Homens e mulheres, sob o efeito da tecnologia, coisificam-se na esperança de encontrar somente no consumo da matéria a esperança da verdadeira felicidade de espírito, esquecendo-se dos valores interiores e harmonizadores, em troca dos valores sectários do individualismo.
Poder, Possuir e Ter são verbos que denotam o grande diferencial no pregresso da modernidade e satisfazem o caráter egocêntrico e torto das massas. E, sem perceber, as pessoas perfazem em grande multidão, o mesmo caminho – de sentido único – sem limites ou destino que sejam verdadeiramente seguros e sem vislumbrar um caminho que as leve de volta ou que contemple o passado – a memória em busca de suas próprias raízes. Para essas pessoas, retornar para recomeçar significaria fracassar, ir pela contramão, olhar de frente uma multidão de rostos que podem revelar tudo aquilo que não foi possível realizar. Assim é a modernidade, une a todos em uma única solidão, onde toda a certeza de hoje se desmancha no amanhã.
Ainda no século XIX, como nos dias de hoje, a modernidade já começava a provocar seus efeitos tentaculares danosos e transformadores, modificando a paisagem da natureza e a vida dos homens, impondo seu caráter modernizador diante dos velhos conceitos de tradição. Desta paisagem Berman (2000) nos faz a seguinte descrição:
[...] do século XIX, a primeira coisa que observaremos será a nova paisagem, altamente desenvolvida, diferenciada e dinâmica, na qual tem lugar a experiência moderna. Trata-se de uma paisagem de engenhos a vapor, fábricas automatizadas, ferrovias, amplas novas zonas industriais; prolíficas cidades que cresceram do dia para a noite, quase sempre com aterradoras consequências para o ser humano; jornais diários, telégrafos, telefones e outros instrumentos de media, que se comunicam em escala cada vez maior; Estados nacionais cada vez mais fortes e conglomerados multinacionais de capital; movimentos sociais de massa, que lutam contra essa modernização de cima para baixo, contando só com seus próprios meios de modernização de baixo para cima; um mercado mundial que a tudo abarca, em crescente expansão, capaz de um estarrecedor desperdício de devastação, capaz de tudo exceto solidez e estabilidade. (p.18)
Esse crescimento aterrador não poderia passar despercebido aos olhos mais atentos da literatura. A modernidade e seus efeitos foram temas quase que exclusivos dos grandes escritores daquela época, todavia, mostrando o seu lado sombrio e cinzento que percorriam as tensões entre pontos antagônicos como modernidade ou tradição, cidade ou campo, ciência ou poesia, realidade ou imaginação, o metafísico ou o objetivo, religião ou ciência todos são pontos que deságuam na consciência humana e se transformam em sentimentos de angústia, escravizam o homem na indecisão das tantas possibilidades de experiências.
De repente o homem da cidade moderna é surpreendido pelas contradições da própria vida moderna, e tudo que ele deseja hoje já pertence ao passado, incapaz de acompanhar a rapidez da modernidade, e se torna premente o caminho de volta à tradição para que ele se reconheça ante seus fragmentos e recomponha sua própria identidade.
É assim que Hamburger (2007, p.375) vai observar que nenhuma cidade é suficientemente boa para os poetas e por isso mesmo eles acabam se voltando para a natureza como norma e arquétipo daquilo que é verdadeiramente bom.
Mas é Antonio Candido quem melhor demonstra as tensões entre aquilo que é urbano e aquilo que é rural, e de como um escritor pode se sentir seduzido pelos ideais da modernidade e voltar às raízes da tradição rural sem que, na verdade, nunca a tivesse abandonado.
Em “Entre campo e cidade ” [ensaio que estudaremos neste artigo daqui por diante] Antonio Candido estuda as obras de Eça de Queiroz para delinear aspectos do homem que se vê em meio à inadaptação das vantagens da modernidade e a natureza do campo onde se encontra seu arquétipo – sua tradição. Logo no início do ensaio Antonio Candido, em breve resumo, revela a oscilação perene nas obras de Eça de Queiroz em diálogo constante entre campo e cidade: Observada no conjunto, mesmo de maneira superficial, a obra de Eça de Queiroz se apresenta em grande parte como diálogo entre campo e cidade – ora predominando a nota urbana, ora fazendo-se ouvir mais forte a nota rural. (p.31). Esse diálogo entre modernidade e campo é configurado, na obra literária, de maneira precisa dentro de um mesmo espaço urbano.
O ensaísta descreve a cidade daquela época como sendo sinônimo de civilização que tinha uma vida social intensa baseada nos moldes capitalista, Lisboa era essa cidade. Mas que, no entanto, Portugal ainda possuía uma economia essencialmente agrária e paternalista, o que caracterizava um modelo de vida tradicionalista dentro do espaço urbano da modernidade.
Sendo assim, Eça de Queiroz vai transitar em suas obras entre os dois núcleos espaciais, o urbano e o rural. Antonio Candido exemplifica da seguinte forma: do lado urbano a modernidade seria representada pela obra O Primo Basílio (1878) com seus personagens tipos – o banqueiro Cohen (d’Os Maias), o cientista Julião, o engenheiro de minas Jorge e o pelintra aventureiro Basílio. Para representar o espaço rural e tradicional a obra A Ilustre Casa de Ramires (1900) com seu personagem alegórico, Gonçalo Ramires morador da pequena Vila clara que, incorporando as tradições portuguesas de navegação, faz uma longa viagem para a África e volta rico e glorioso, numa clara alusão ao fracasso de D. Sebastião e ao colonialismo como solução para os problemas da instabilidade política de Portugal. A leitura irônica, na verdade, é um apelo à volta a um passado glorioso e tradicionalista, fincado com raízes na aristocracia e reverberando, em segundo plano, o socialismo de Eça de Queiroz.
Na segunda parte do ensaio, Antonio Candido analisa os primeiros livros publicados por Eça de Queiroz, observando um ponto de vista do escritor voltado mais para a modernidade urbana, embora o romance pertença ao espaço rural. Em O Crime do Padre Amaro (1875) a província de Leiria vai ser alvo de ataques sarcásticos e irônicos em que, o clero, na imagem do padre Amaro, será o principal atingido. Amaro é fraco física e psicologicamente, é um homem de caráter duvidoso: engravida Amélia que morre no parto, seu filho é doado e mais tarde também vem a falecer. Dessa forma o escritor degrada os costumes religiosos e os valores sociais da época também no espaço rural. A administração de Leiria está comprometida com mazelas e corrupção. Antonio Candido, em seu ensaio, observa da seguinte maneira:
Nos primeiros livros, o seu ponto de vista é o de um homem da cidade, dum crente na cultura urbana do tempo. N’O Crime do Padre Amaro a vida provinciana é literalmente arrasada, e o ex-administrador do conselho de Leiria personifica nos seus administrados todo o vício da província, com o meso sarcasmo e a mesma antipatia que lhes votava como homem da cidade. O padre aparece sob as piores cores, como agente de dissolução das consciências e dos costumes; o funcionário, madraço inveterado, é incompetente e leviano; o respeitável burguês, um Joseph Prudhomme tanto mais revoltante quanto não há forças vivas que o contrastem; o homem da rua (que perpassa no livro), o camponês (que se demora um pouco mais), miseráveis, embrutecidos, corroídos de ignorância e bestialidade.(p.33)
A visão objetiva e naturalista do jovem escritor de ideais socialistas tinha em mente, em sua primeira fase, resolver os problemas sociais, fossem eles da cidade grande ou da província, o que significava uma completa adesão ao progresso do Positivismo cientificista que aplacava o continente Europeu naquele momento. Aí se explica o pragmatismo combativo, ou louvável, da obra que se vale, fortemente, dos personagens tipos que vão representar a sociedade decadente e atrasada de Leiria – a cidadezinha em nada atingia os anseios da modernidade. Sobre isso Antonio Candido faz o seguinte comentário, considerando os primeiros livros de Eça de Queiroz: De acordo com esta noção dá aos primeiros livros uma inflexão combativa, uma função de luta e reforma. Cada personagem deixará de ser apenas um personagem para transformar-se em paradigma, encarnar um tipo social a louvar ou combater. (p.34). Esta observação, e cabe dizer, não se ajusta somente à crítica social, combater, implica também em mudanças, é sair do atraso provinciano. Louvar seria ir para a modernidade da cidade grande e se adaptar aos costumes europeus. Eça tem plena consciência das dificuldades e da “impotência da sociedade do seu país” para se ajustar a essas mudanças de estilos, isso pode ser visto claramente no romance O Primo Basílio, no personagem Basílio de Brito, um burguês “com a maior falta de tato” tentando se ajustar à modernidade Ocidental:
Basílio de Brito, snob de fancaria, pretende ser um ente civilizado, “do boulevard”, alardeando requintes com a maior falta de tato. No entanto, esse rastaqüera intolerável é um português de boa família que quis dar-se “ares da lá de fora”. O fracasso é lamentável, como será com outros burgueses embandeirados de Eça, a começar pelo Dâmaso. (CANDIDO, 2002, p.35)
É bom que se diga que o pessimismo de Eça rondava tanto o espaço rural como o espaço urbano, embora para ele o espaço urbano representasse algo mais próximo dos seus ideais socialistas de progresso, desenvolvimento e modernidade. Contudo, mesmo em Lisboa, ainda via um povo atrasado e preso aos elos da tradição agrária, tanto na economia como no estilo de vida, segundo Candido: O que via na pátria, todavia, era uma civilização pachorrenta, baseada na agricultura e no comércio, quase inteiramente à margem da vida febril do Ocidente. (p.31). Do mesmo modo, no campo, dentre outros vícios, as pessoas eram criticadas pela morosidade, lentidão, preguiça e fraqueza física.
Na terceira parte do ensaio Antonio Candido nos coloca o romance A Correspondência de Fradique Mendes (1900) como sendo o apogeu da modernidade. Fradique é o burguês idealizado, padrão da civilização moderna, homem requintado e viajado, o cosmopolita conhecedor de muitas culturas: Índia e a Pérsia, o Egito e a Etiópia, a Europa e a América sabe desfrutar das comodidades de sua época:
Fradique ultra-burguês oitocentista, acrescenta às suas forças, não a dos seis cavalos de Mefistófeles, mas a do vapor, da máquina, de telégrafo, revestindo-se por seu intermédio duma mobilidade extrema, podendo palmilhar o mundo e esquadrinhá-lo, na procura verdadeiramente fáustica do enriquecimento pessoal. (CANDIDO, 2002, p.38)
Todavia, na viagem entre o campo e a cidade o personagem Teodorico Raposo do romance Relíquia (1887) é a imagem do burguês lusitano atrelado às suas raízes provincianas, homem rico, mas sem a devida educação do português civilizado: [...] Raposo é o fruto de uma educação lamentável, o burguês que constitui a média caricatural da sociedade lisboeta, mistura bastarda, segundo Eça, (p.40) a descrição compõe a mais perfeita imagem do burguês idealizado, sendo confrontado com o burguês da realidade lisboeta, Fradique, era um homem apegado às coisas da civilização moderna, Raposo, preso aos costumes rurais de longa tradição: [...] Raposo ama a pátria com ternura. Em Jerusalém, falta-lhe a doçura dos costumes natais. “Em Lisboa é que é! Vai-se ao Dafundo, ceia-se no silva... Isto aqui é uma choldra!”. (p.40) Do burguês provinciano podemos dizer que suas aspirações não vão além de seu próprio estômago e do conforto da terra natal.
Contudo, já na quarta parte do ensaio, Antonio Candido nos chama a atenção para o fato de que: quando Eça escreveu estas obras já não tinha mais o mesmo espírito socialista encontrado nos seus primeiros livros, e aponta o romance d’Os Maias (1888) como “recuo ideológico”. Um romance cujo espaço está claramente dividido entre o campo e a cidade ou a quinta de Santa Olávia e Lisboa. Embora seja um romance urbano em sua essência, e mais uma vez a cidade acabe se sobrepujando ao campo na representação de alguns personagens como o próprio Carlos da Maia: Lisboa desfibra Carlos da Maia, transformando-o num viveur inútil (p.42) – a história nos mostra certa ascendência na valorização do campo, na virilidade e na moral do homem de raízes fincadas na tradição, o campo abastece a cidade de material humano. (p.43) – diz Antonio Candido, e prossegue na mesma página:
E se Gouvarinho provém dos “férteis vales” do Mondego, “de Formozelha, onde tinha casa, onde vivia idosa sua mãe, a senhora condessa viúva”; se Euzebiosinho, a “ascorosa lombriga e imunda osga”, desceu melancolicamente de Resende, – isto é, se o campo mandava os seus detritos, não é menos verdade que João da Ega, “homem de gosto e de honra”, saiu de Celorico-de-Bastos e, sobretudo, que Afonso da Maia “varão de outras idades”, e o espécimen soberbo que é Carlos, têm plantadas no campo as raízes pelas quais nutrem, um, a sua pureza, outro, a sua harmoniosa virilidade.
Assim, se os Maias significam a decadência da sociedade Lisboeta, também, afirma Antonio Candido, é nela que vamos encontrar o “material humano” de virilidade e moral, o “homem de gosto e de honra”, o “varão de outras idades” e o “espécimen soberbo” vindos do campo, é assim que o homem do campo ganha espaço no romance urbano.
O ensaísta observa que a maturidade intelectual do escritor não é atingida pelos romances urbanos da sua primeira fase, mas sim por um romance tipicamente rural, tido como sua obra-prima A Ilustre Casa de Ramires (1900), pois é na tradição que os Ramires vão encontrar forças para afirma uma superioridade cheia de orgulho de estirpe. (p.44) quando o então Gonçalo Ramires, fracassado na vida política, volta rico após uma longa viagem que duraria quatro anos pela África. O romance transita pela quinta, o campo, a freguesia, a aldeia, a pequena cidade: Santa Irenéia, Bravais, Vila Clara, Oliveira. (p.44). O apego às coisas do campo, à tradição, o retorno de Ramires à pátria, o espaço rural dominante, a não preocupação com a “reforma social” e outros aspectos, levam Antonio Candido à seguinte conclusão: A preocupação urbana da reforma social não se manifesta mais aqui; reconciliado com o sentido tradicional da civilização da sua pátria, o romancista vai encontrando no campo repouso para a inquietude. (p.45). Fica evidente para o ensaísta que Eça de Queiroz emerge em desabafo, louvando a natureza e as coisas do campo, deixando o seu lado rural tomar conta do espírito camponês dentro de si.
Na sexta parte para esclarecer essa “visão compreensiva” de Eça pelas coisas rurais e pelo romance tipicamente rural A Ilustre Casa de Ramires, Antonio Candido é enfático ao revelar que, no século XIX, seria impossível um romance ser absolutamente urbano, posto que a civilização ainda estivesse, completamente, atrelada a uma economia, quase que essencialmente agrária e comercial. Era daí que a cidade tirava seu sustento. Por outro lado e, Com efeito, Eça jamais se libertou da velha moral portuguesa, do culto idealizado da honradez aldeã e forte, de um padrão corriqueiro e convencional, que em suma é o de Julião Diniz. (p.49). e mais adiante, na mesma página, quem foge a esta regra estará fadado ao fracasso. Ficam aqui, as mais evidentes marcas dos valores tradicionais do homem do campo, do tempo em que se dizia: – Dou a minha palavra de honra! E não precisava assinar nenhum papel registrado em cartório.
Essa tendência de Eça, a um retorno às tradições rurais, é percebida por Antonio Candido pelos aspectos campesinos encontrados ao longo das obras do escritor, que na verdade nunca conseguiu se libertar das velhas normas da tradição rural:
Como Eça não se libertou da velha ética, era de esperar que o seu socialismo e a sua irreverência acabassem por ser, não vencidos, que nunca o foram, mas equilibrados, compensados, pela irrupção dos antigos valores recalcados: sentido rural da vida; acatamento da tradição; conformismo em relação aos poderes estabelecidos; senso poético, em vez de destruidor, da cultura portuguesa. Sobretudo não havendo em Portugal, como não havia, uma sólida civilização urbana, ajustada ao mundo contemporâneo, que fixasse o seu modernismo. (CANDIDO, 2002, p.50)
Antonio Candido observa ainda (p.51) que não somente o fato de Portugal ser incapaz de se ajustar a uma civilização moderna, por “razões de natureza sociológicas”, levou o escritor a mudar da “linha urbana” para a linha rural, mas também, e principalmente, “mudanças na vida do romancista”:
O casamento nobre, a glória literária, o prestígio social, as injunções da carreira, a favor da Coroa, foram tecendo uma rede sutil de compromissos com a sociedade existente, e nessa rede foi se embalando aos poucos o amigo socialista, num conformismo suave com o mundo e os seus pecados.
Essa citação poderia levar o leitor a imaginar que Eça aderira ao conformismo rural e abandonara o seu oposicionismo em favor de uma vida mais tranquila, esquecendo completamente os conceitos ideológicos do socialismo e vencido pelo enfado. Mas o ensaísta nos adverte com uma recomendação de cautela, e lembra mais uma vez da impossibilidade da cultura e da sociedade Portuguesa do século XIX, em não oferecerem ao artista um panorama rico de significado, provavelmente não comportariam um romance urbano de costumes, harmonioso e forte. (p.55). Olhando assim, sem as interpretações políticas em primeiro plano, o romancista nos parece mais próximo daquilo que assinala para um “espírito de contradição”. Para Antonio Candido este espírito traduz a complexidade dirigida pelo senso artístico (p.56) unificado em uma obra literária, pode ser ainda um poderoso componente que move as ações do homem na natureza, dinamiza e liberta-o da “estagnação medíocre” e diz: Em Eça nunca se fez estagnação, as dúvidas nunca cessaram de trabalhar, ao contrário do que pretende a crítica simplista ou interessada. (p.55).
Através do ensaio de Antonio Candido podemos chegar, dentre outras, às seguintes conclusões sobre as mudanças de Eça de Queiroz e, por conseguinte, sobre o campo e a cidade dentro do conjunto de suas obras: Eça, de fato, nunca abandonou suas raízes de “moral rústica” tradicionais. Isto nos faz pensar na pequena cidade em que nasceu (Póvoa de Varzim, Distrito do Porto, na região norte de Portugal), apesar de ter feito fortes críticas à vida campesina ante seu atraso e apego às normas e costumes da vida rural, nunca perdeu o senso de origem. Também nunca deixou que sua “oposição socialista” o cegasse diante das impossibilidades do progresso de Portugal, ao contrário,
O senso de autenticidade existente em todo grande artista levou-o, assim, a procurar, sob os terrenos movediços da aluvião burguesa, a rocha sobre a qual assentava sua pátria e foi encontrá-la no campo, já que as expedições ao mundo ignoto eram coisas do passado morto. (p.51).
Outro dado importante é a firme imparcialidade dos personagens nos romances de Eça, pois tanto no campo e na cidade eles assumem sempre uma mesma postura insuficiente “quer seja moral ou mundanamente”: Neles, não encontramos um só tipo moderno, avançado, que consiga realizar equilíbrio apreciável na vida, quer moral, quer apenas mundanamente. (p.49). Por tudo isso, é que o ensaísta coloca a visão urbana e a visão rural em constante equilíbrio dentro das obras de Eça, e se quisermos formar juízo de valor será esse o ponto de equilíbrio norteador, sendo, respectivamente, um dominador na sua primeira fase e o outro na segunda fase. É assim que se encontram o “espírito criador” com a “matéria plástica” para dizer que a visão compreensiva de Eça teve a mesma importância para seus romances, da mesma forma que a sua visão oposicionista. (p.56).
Dessa leitura, podemos compreender a forte ligação que a tradição exerce sobre nós enquanto conjunto de valores que se trata, como diz Bornhein, “da totalidade do comportamento, que só se deixa elucidar a partir do conjunto de valores constitutivos de uma determinada sociedade.” (1987, p.20) Eça não pôde fugir desse apelo enquanto indivíduo constitutivo da sociedade portuguesa, sua natureza mais cedo ou mais tarde acabou por vencer sua oposição, trazendo-o de volta ao conforto e deleite das normas campestres.
REFERÊNCIAS:
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. S. Paulo: Companhia das Letras, 2000. (p. 15-35).
BORNHEIN, Gerd A. O conceito de tradição. In:_____. Tradição e Contradição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Funart, 1978. (p.13-29).
CANDIDO, Antonio. Entre Campo e Cidade. In:_____. Tese e Antítese: ensaios. 4 ed. São Paulo: T.A. Queiroz Editor, 2002. (p.31-56).
HAMBURGER, Michael. A cidade e o campo: fenótipos e arquétipos. In:_____. A verdade da poesia: Tensões na poesia modernista desde Baudelaire. Trad. Alípio Correia de Franca neto. São Paulo: Cosac Naify, 2007. (p.373-438).
LE GOFF, Jacques. Por amor à cidade: conversações com Jean Lebrun. Trad. Reginaldo Carmello Correa de Moraes. São Paulo: Unesp, 1998. (p.25-67).